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Textos Junguianos

Carl Gustav Jung
Texto extraído do livro Filosofia e Espiritualidade. Adenáuer Novaes.
Publicada no dia 19/01/2013 às 15h05

      Incluir Jung na galeria dos filósofos poderia parecer uma tentativa de redução ou limitação do seu pensamento à especulação metafísica, porém, trata-se de ampliar seu saber além da Psicologia. Ao propor um modelo estrutural da psiquê, Jung permitiu uma melhor compreensão do pensar e sentir humanos. Sua psicologia contribuiu e contribui para uma melhor compreensão do ser humano, e conseqüentemente do sentido de sua própria vida.

     Destaco, dentre outros conceitos, a idéia da individuação em sua obra. Ela vem dar um sentido às propostas cristãs, e configura-se como uma forma prática e coerente de viver, muito próxima do encontro com o divino em si, sem a necessidade do distanciamento da vida material. Aproxima-se também de uma visão espiritual da vida, cujo sentido transcende o materialismo.

     Jung afirma que “A individuação, (...) significa precisamente a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano; é a consideração adequada, e não o esquecimento das peculiaridades individuais, o fator determinante de um melhor rendimento social. A singularidade de um indivíduo não deve ser compreendida como uma estranheza de sua substância ou de seus componentes, mas sim como uma combinação única, ou como uma diferenciação gradual de funções e faculdades que em si mesmas são universais. Cada rosto humano tem um nariz, dois olhos, etc., mas tais fatores universais são variáveis e é esta variabilidade que possibilita as peculiaridades individuais. A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é. Com isto, não se torna “egoísta”, no sentido usual da palavra, mas procura realizar a peculiaridade do seu ser e isto, como dissemos, é totalmente diferente do egoísmo ou do individualismo.[1]

    Portanto, a individuação é um processo de particularização e diferenciação do indivíduo para o desenvolvimento de sua personalidade integral, sem que se exclua de sua vida coletiva. Leva o indivíduo para além de si mesmo, sem esquecer de que ele é terreno e vive em sociedade, descobrindo sua singularidade mais íntima e incomparável. Jung diz, também: “A individuação não exclui o mundo; pelo contrário, o engloba.[2]Neste processo, o indivíduo se percebe melhor, estabelecendo a diferença entre o que é e aquilo que se tornou a partir das interferências do mundo. O processo é comandado pelo Self, que, através do ego, realiza o Espírito.

    Não se trata de uma oposição à sociedade, nem excluído dela, mas viver a vida alienado de si mesmo, na sociedade, em cujos relacionamentos dar-se-ão o crescimento e desenvolvimento da personalidade integral. É um processo de interiorização e de relação com os outros, simultaneamente. Jung diz ainda: “Quanto maior a regulamentação coletiva do homem, maior sua imoralidade individual.[3]Pode-se inferir o estágio da relação que o indivíduo tem com seu inconsciente a partir do quanto ele é dependente das regras coletivas. Quanto mais desconhece suas reais motivações e tendências, mais a pessoa necessitará de freios sociais, sob a forma de leis ou punições. Quanto mais atento e fiel aos propósitos internos, menos necessitará ser controlado por leis coletivas, pois sua adaptação à sociedade se dará naturalmente, em decorrência da adequada consideração às instâncias pessoais e coletivas da própria vida.

    Por outro lado, as normas, quando absolutas ou dogmáticas, freiam o desenvolvimento da personalidade. De forma alguma a individuação é um processo egocêntrico ou individualista, mas algo que também leva o indivíduo a uma fraternidade com seu próximo, tendo em vista sua auto-inclusão na humanidade. É importante verificar, a pretexto da realização de sua individuação, se não se está fugindo dos compromissos humanos comuns, pois estes, necessariamente, também conduzem ao desenvolvimento da personalidade integral.

    De início, a individuação retira o indivíduo da coletividade, razão pela qual ele deve pagar um preço. Seu preço é produzir algum valor em retribuição à sociedade da qual ele se retirou. A sociedade reprime tudo aquilo que é individual. Caso ele não devolva à sociedade o que lhe cabe, ela o desprezará, tanto quanto ele a ela. Será um suicídio. Sua retirada temporária da sociedade é um processo automático de recolhimento a si mesmo para a descoberta de valores pessoais e para a estruturação da personalidade em face do embate necessário que viverá com o coletivo. Ao se retirar temporariamente da sociedade estará sonegando sua parcela de contribuição individual ao progresso coletivo. Estará vivendo apenas para si mesmo, razão pela qual deverá produzir algo em retribuição para compensar sua ausência não produtiva à sociedade da qual obrigatoriamente faz parte. A sociedade, como corpo uno, exige a participação de todos para sua integridade, cuidando daquilo que é comum, deixando em segundo plano o que é individual. Aquilo que é individual e diferente será desprezado, portanto, excluído e terá um destino funesto.

    Das palavras ditas por Jesus, podem ser extraídos conteúdos que se aproximam da idéia de individuação. Ao afirmar “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai[4], pode-se fazer uma analogia à realização da personalidade individual no coletivo. Ele também costumava evocar a fé da pessoa como necessária à realização dos “milagres”. Ele disse: “vai-te, e seja feito conforme a tua fé[5], reafirmado em Mateus, 9:29: “faça-se-vos conforme a vossa fé”. Costumava dizer que faria conforme o desejo das pessoas, como a querer afirmar que aquele desejo é que estaria provocando o ato. Isso se assemelha, no processo de individuação, à necessidade de o indivíduo realizar seu próprio destino, bem como de permitir que o inconsciente se realize.

    O Cristo é o protótipo do ser individuado. Viveu sua singularidade no coletivo. Pagou o preço de viver sua própria vida, oferecendo à humanidade altos valores norteadores da existência humana. Jung considerava o Cristo a representação do arquétipo do si mesmo. O Cristo conseguiu, não só, evocar nas pessoas o sentido divino nelas adormecido, como também a projeção dessa “imago dei” nele.

    A reforma íntima defendida pelo espiritismo guarda relações com o processo de individuação. Se assim não for, ela se torna frágil, pois atende apenas às exigências coletivas. A reforma íntima deve ser um processo profundo de transformação pessoal, o qual inclui: a integração dos aspectos aversivos da própria personalidade, a administração das personas, o contato com sua parte arquetípica oposta (ânima ou ânimus), a conscientização dos complexos e sua conseqüente dissolução e a conexão íntima com o Self.

    Mesmo considerando a necessidade do ser humano de se individuar, parece haver um plano maior que dirige os destinos de um modo geral. Paradoxalmente, algo nos aponta para a existência de uma liberdade de escolha na construção desse mesmo destino. No plano maior, antes de reencarnar, o indivíduo constrói uma versão projetada de si mesmo para o contato que terá com a realidade, que é considerada fora de si mesmo. Esquece-se de planejar como será o embate que terá, quando se deparará com seu próprio mundo interior. Projeta e constrói um mundo como representação de sua psiquê, primordialmente inconsciente e provocativa.

    Quando o mundo interior se expressa, a alma humana sai da noite escura em que se encontra, mostrando quão bela é a vida que dorme em si mesma. Nos primórdios da evolução, quando ainda predominavam os instintos na personalidade, não era possível essa visão de si mesmo. Mas, quando a individuação é antevista, o ser luminoso aparece e percebe a extensão da escuridão que o cercava enquanto esteve inconsciente de si mesmo.

    Ainda a respeito da individuação e da atitude do indivíduo perante a religião, Jung considera: “O homem autenticamente religioso assume precisamente tal atitude. Ele sabe que Deus criou todas as espécies de estranhezas e coisas incompreensíveis, e que procurará atingir o coração humano pelos caminhos mais obscuros possíveis. É por isso que a alma religiosa sente a presença obscura da vontade divina em todas as coisas. É esta a atitude que pretendo designar quando falo de "objetividade isenta de qualquer preconceito". Ela constitui o desempenho moral do médico, o qual não deve sentir repugnância pela enfermidade e pela podridão. Não se pode mudar aquilo que interiormente não se aceitou. A condenação moral não liberta; ela oprime e sufoca.”[6]

    Importante a visão de Jung a respeito da atitude religiosa, ao colocá-la em consonância com a aceitação do outro e suas enfermidades. Sua compreensão a respeito de religião e da prática religiosa inclui a percepção da natureza e relatividade do mal. Segundo ele, o mal deve ser percebido no próprio indivíduo, pois isso o tornará mais tolerante ao mal no outro. A atitude religiosa deve contemplar a descoberta de Deus em si mesmo, enquanto se tenta percebê-lo no mundo externo. A religião não é uma ligação exclusivamente ao externo, mas àquilo que jaz em seu mundo interno, misteriosamente construído por Deus.

    Sem deixar de valorizar as religiões e, em particular, o cristianismo, até porque era cristão, Jung tinha uma visão crítica a respeito do comportamento dos que se declaravam professar a moral cristã. Para lembrar quanto ao seu grau de ligação com a religião, mandou esculpir, na pedra acima da porta de sua casa, a seguinte frase: “Invocado ou não invocado, Deus está presente”. Sua percepção a respeito de Deus ultrapassava o domínio da crença, constituindo-se numa consciência Dele em si mesmo. Sobre os cristãos em geral, ele dizia: “Parece como se desde o início o Cristianismo tivesse sido a religião dos amantes das rixas, e que ainda hoje se esforçasse para que jamais sossegasse a altercação. É curioso que ele viva a anunciar sinceramente o Evangelho do Amor ao próximo.”[7]

    Jung, com suas afirmações, parece querer retirar do ser humano o sofrimento colocado pelo peso de suas próprias crenças a respeito de Deus. A leveza pode ser sentida ao se refletir sobre suas palavras a respeito da condenação moral, consoante a afirmação de Jesus sobre o “não julgueis”.

    O processo de individuação requer o sacrifício da personalidade que apresentamos ao mundo, em favor daquela que precisamos nos tornar. Nem sempre conseguimos expressar quem somos ou quem queremos ser. Muitos processos inconscientes ainda necessitam ser representados na consciência para que possamos nos tornar nós mesmos. A alma humana quer se expressar e, quando o faz, revela suas angústias, dúvidas e inquietações. É por demais humano o que revela, porém é preciso tomar consciência de sua totalidade, sem desprezar a natureza aversiva que habita o mundo íntimo.

    Quem conserva uma imagem boa de si mesmo, desprezando sua contraparte, costuma se surpreender com suas atitudes inadequadas, geralmente atribuindo suas causas a fatores exógenos ou preferindo eleger culpados.

    Jung não só contribuiu à psicologia, como também à filosofia, ao propor ao ser humano um novo olhar sobre si mesmo, tornando-se autor de seu próprio destino e capaz de gerir seus processos psíquicos, conscientes e inconscientes.


[1]OC Vol. VII, par. 267.
[2]OC Vol. VIII, par. 432.
[3]OC Vol. VI, par. 856.
[4]Mateus 5:16.
[5]Mateus 8:13.
[6]OC Vol. XI, par. 519.
[7]OC Vol. XIV/1, par. 251.

Fonte: Adenáuer Novaes
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