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Textos Junguianos

Os sonhos em Jung
Texto extraído do livro Sonhos Mensagens da Alma. Adenáuer Novaes
Publicada no dia 19/01/2013 às 15h58

Talvez os sonhos sejam um dos temas mais abundantes na Psicologia de Jung. Se não o for, creio que seja o mais recorrente, dada a sua importância para a compreensão dos aspectos inconscientes da psiquê. Ele soube notar a importância fundamental desse fenômeno para a compreensão da natureza humana e de seu desenvolvimento. Seus estudos mais importantes incluem essa via de acesso aos conteúdos inconscientes da mesma forma que um astrônomo se utiliza do telescópio para ver o universo. Ele o explorou de várias formas sobre pontos de vista nunca antes experimentados. Dos teóricos que se dedicaram ao estudo dos sonhos, ele foi o que mais se utilizou de estudos experimentais para o desenvolvimento de suas afirmações.

Foi fundamental para Jung o desenvolvimento do método das associações de palavras na constituição de sua teoria psicológica, em particular no que se refere à descoberta dos complexos e à análise dos sonhos.

Em 1902, antes de avistar-se com Freud, Jung, então um jovem médico de 27 anos, tece algumas considerações sobre os sonhos em seu trabalho Estudos Psiquiátricos[1], onde considera que os sonhos apresentam à consciência um simbolismo daquilo que nunca é admitido. Neste particular, que se refere à forma como o sonho se apresenta, ele parece querer mostrar, com outra linguagem, o que Freud chamava de conteúdo latente dos sonhos. Ao analisar os fenômenos denominados de alucinações, Jung levantava uma questão a respeito dos estudos de Freud sobre sonhos, em seu Die Traumdeutung, cuja leitura lhe fora recente. Ele, embora admitisse o simbolismo expresso pelo sonho, não identificara, no caso em estudo, a repressão afirmada por Freud. Reconhecia uma certa censura no sonho, como Freud já havia assinalado antes. Creio que, talvez, ele já percebesse o simbolismo de que os sonhos se revestem.

Jung considerava que “quanto menos a consciência acordada interferir com reflexões e cálculos, mais segura e convincente será a objetivação do sonho.[2]Atribuindo ao inconsciente o papel de gerador dos sonhos, ele deixa em aberto a possibilidade da interferência da atividade consciente (o desejo, por exemplo).

Ele não considerava que os sonhos não pudessem ser fruto da realização de desejos sexuais, como consta no parágrafo 120 do Volume I de sua obra. Porém, ele admitia a existência de outros tipos de sonhos com outras interferências.

Mais tarde, na sua obra Estudos Experimentais, escrita entre 1904 e 1907, ele cita[3]outro tipo de sonho, o sonambúlico, que surge como sintoma da histeria. Nesta mesma obra ele vai estabelecer[4]o paradigma de que há sonhos que são expressões simbólicas do complexo, cujo conceito ainda não estava bem definido claramente. Jung fazia estudos sobre associação, sonho e sintoma histérico e colocava o sonho como sendo uma porta à compreensão dos complexos. Mais tarde ele vai assinalar que o inconsciente é de tal forma rico que não se pode ter a pretensão de enxergá-lo a partir de uma única estrutura (o sonho). No parágrafo 844 ele diz: – “Vimos principalmente que os sonhos confirmam o complexo revelado nos testes de associação. As associações indicam um complexo sexual intenso e os sonhos se referem exclusivamente, por assim dizer, ao tema do acasalamento. Ficamos sabendo que os complexos que constelam as associações no estado de vigília também constelam os sonhos. Encontramos também na análise dos sonhos os mesmos bloqueios que se manifestam no experimento das associações. A análise das imagens oníricas revelou o complexo sexual, sua transposição para o autor, a desilusão e volta da paciente para a mãe e o reatamento de uma relação infantil e misteriosa com o irmão.” Seus estudos o levaram ao inevitável paralelismo entre os sonhos e os complexos.

Como Freud, Jung também considerava os sonhos como resíduos do dia. Ele empregava, na análise, o método psicanalítico freudiano. Ele afirmava[5]que os sonhos, ao invés de serem conseqüência de desejos reprimidos, eram representação de complexos reprimidos.

Ainda nesta época, por volta de 1906, Jung publica seu trabalho intitulado Psicogênese das Doenças Mentais, onde ele continua a colocar a análise dos complexos juntamente com os sonhos. No capítulo III – A influência do complexo de tonalidade afetiva sobre a valência da associação, daquela obra, no parágrafo 122, ele afirma: – “Os sonhos também se estruturam segundo os modos de expressão simbólica do complexo reprimido, (...). Na verdade, encontramos os mais belos exemplos de expressão por semelhança de imagens nos sonhos. Freud reconhecidamente abriu um novo horizonte para a análise dos sonhos. Espero que a psicologia logo venha a perceber esta verdade, que lhe traria enormes benefícios. Nessa perspectiva, a Interpretação dos Sonhos de Freud é fundamental no que concerne ao conceito de expressão por semelhança de imagens, tão importante na psicologia da dementia praecox.” Jung considerava que a maior parte dos complexos fosse de origem erótica-sexual, porém afirmava que existiam outros tipos.

Seguindo a cronologia, num texto escrito em 1909, em francês, ainda contaminado pelas idéias de Freud, embora já apresentando aspectos novos e preparando sua teoria sobre os sonhos, Jung coloca que as sensações orgânicas não são a causa dos sonhos. Os sonhos possuem um significado. Eles desfiguram, mas apontam para o complexo reprimido. Essa desfiguração é feita pela censura. Perguntar ao sonhador o significado direto do sonho é perder tempo. Deve-se ir às associações. Deve-se fazer perguntas ao sonhador. Quem? O que? Etc.

No volume V das Obras Completas, Símbolos da Transformação, escrito entre 1911 e 1912, que marca a dissidência entre ele e Freud, encontramos elementos através dos quais se pode dizer efetivamente que ele apresenta uma nova teoria dos sonhos. Desenvolve o conceito de que os primeiros sonhos em análise tratam da relação transferencial e servem de excelente instrumento ao analista no seu trabalho terapêutico. Procura demonstrar que as bases inconscientes dos sonhos não são somente reminiscências infantis, mas, na realidade, tratam-se de formas de pensamento primitivas ou arcaicas, que naturalmente aparecem mais claramente na infância do que depois. Coloca a questão da compensação dos sonhos em relação ao estado consciente, isto é, completam o que nele falta. Apresenta a idéia dos sonhos prospectivos afirmando que “os sonhos repetem a realidade com exatidão excessiva ou insistem com excessiva nitidez numa realidade antecipada”.

Em 1916, Jung volta a abordar a importância dos sonhos para o conhecimento das camadas do inconsciente, pessoal e coletivo, colocando os arquétipos como estruturas pertencentes a estes últimos, e que surgem nos sonhos, a exemplo da sombra. Critica o procedimento redutivo, exclusivamente causal, na análise dos sonhos, face aos símbolos não mais serem passíveis de redução às reminiscências ou anseios pessoais, por trazerem imagens do inconsciente coletivo. A partir de muitos fracassos, segundo Jung, ele abandonou a orientação exclusivamente personalística da psicologia terapêutica. Ele afirmava que toda análise deve ser seguida de uma síntese, e essa síntese deve ser feita com o material arquetípico ampliado. Reafirma a natureza compensatória dos sonhos a fim de conservar o equilíbrio da alma, porém, esta não é a única finalidade da imagem do sonho. Ele (o sonho) também retifica a concepção do paciente. Sua técnica se reforça com a busca dos elementos arquetípicos presentes nos sonhos e sua necessidade de compreensão por parte do paciente.

Mais tarde, em 1921, no volume VI, Tipos Psicológicos, ele tratou do tema, reforçando a idéia de que os sonhos possuem a facilidade de fazer reaparecer a realidade primitiva da imagem psíquica, encontrando neles os temas da mitologia grega presentes em negros de raça pura, além de uma faculdade de antecipar o futuro de forma construtiva visando o desenvolvimento psicológico. Assinala novamente a função compensadora inconsciente. Neste volume ele também desenvolve os conceitos sobre as interpretações no plano do objeto e no plano do sujeito. Sobre esse assunto ele afirmava: “Quando falo de interpretar um sonho ou fantasia no plano do objeto, quero dizer que as pessoas ou situações que neles aparecem são objetivamente reais, em oposição ao plano do sujeito em que as pessoas ou situações nos sonhos se referem exclusivamente a grandezas subjetivas. A concepção freudiana dos sonhos está exclusivamente no plano do objeto, uma vez que os desejos nos sonhos se referem a objetos reais ou a processos sexuais que incidem na esfera fisiológica, portanto extrapsicológica.

Em 1928, ao escrever os “Aspectos Gerais da Psicologia do Sonho”, ele desenvolve outros conceitos que reforçam suas concepções, cada vez mais distanciadas das idéias freudianas. Para Jung, nessa época, o sonho é uma criação psíquica que contrasta com os conteúdos habituais da consciência. Não é o resultado de uma continuidade da experiência, mas o resíduo de uma atividade que se exerce durante o sono. Porém, eles não estão totalmente à margem da continuidade da consciência, pois se podem encontrar detalhes que provêm do dia anterior ou de dias anteriores. A dificuldade de se recordar os sonhos vem da combinação das representações numa seqüência estranha ao modo habitual de se pensar. Chamam-se os sonhos de absurdos pela própria projeção da incapacidade de entendê-los. A significação psicológica mais profunda dos sonhos é semelhante ao sentido moral oculto das fábulas. Para se explicar psicologicamente os sonhos deve-se investigar as experiências precedentes de que se compõem.

Ele considerava que, para se entender o sentido do sonho deve-se perguntar ao paciente que elementos estão associados à imagem onírica. Lugares conhecidos, familiares, parentes, fatos passados, etc., porém a redução é insuficiente. Deve-se questionar o “porquê” daquelas associações e não outras. Uma causa só é insuficiente. “Só a influência de várias causas é capaz de dar uma determinação verossímil das imagens do sonho.” Pode-se evocar toda a história do indivíduo como material associativo ao sonho, porém deve-se ir até onde possa parecer necessário. Deve ser feita uma seleção do material e submetê-lo ao método comparativo. Os fenômenos psicológicos podem ser abordados de duas formas: causalidade e finalidade. Do ponto de vista causal, o material recolhido leva às tendências. Saindo da causalidade e indo para finalidade, Jung pergunta para que serve o sonho. Para que e não por que ele ocorre. Ele não deixa de concordar com as interpretações causais, porém vai mais além. Afirma que a compreensão não é um processo intelectual. A eficácia dos símbolos religiosos é um exemplo disso. O sonho não é simplesmente uma instância moral. O inconsciente é aquilo que não se conhece num dado momento. O sonho acrescenta à situação psicológica aspectos essenciais desconhecidos. O sonho acrescenta ao sonhador aspectos que foram ignorados por ele.

Critica novamente a concepção freudiana pela limitação à análise causal, que parte do desejo recalcado e que tudo poderia desembocar no aspecto genital erótico. Para ele a linguagem dos sonhos não deve ser interpretada em sentido concreto. A linguagem sexual é de natureza arcaica, cheia de analogias, sem coincidir todas as vezes com o conteúdo sexual verdadeiro. Ele afirma a riqueza dos símbolos e critica a uniformidade de significação. Para ele o ponto de vista causal tende para essa uniformidade, ao contrário do final, baseado na concepção de que o símbolo não dissimula, ensina. O ponto de vista final é capaz de concorrer para a educação prática da personalidade, pois mostra o que ela está negligenciando.

Muito embora assinale a limitação da análise causal ele considera que a psiquê não pode ser entendida apenas pelo modo causal. Ela também exige uma abordagem finalista. O sonho só pode ser mais bem compreendido pela conjugação dos dois pontos de vista.

Quanto aos motivos dos sonhos, eles podem ser encontrados nos mitos e contos de fadas. A psicologia onírica é uma psicologia comparada. Muito embora se deva munir dos elementos mitológicos, ele considera que os sonhos comunicam pensamentos, julgamentos, concepções, diretrizes, tendências, etc., inconscientes recalcados, reunidos associativamente face à necessidade do estado momentâneo da consciência, sendo fundamental conhecer-se esse estado para se compreender o sonho.

Como ele considerava que todos os sonhos têm um caráter compensador em relação aos conteúdos conscientes, eles contribuem para a auto-regulação da psiquê. Nesse processo de compensação, ao contrário de Freud, ele dizia que o sonho é justamente aquilo que mais perturba o sono. Ele afirma que a concepção de Freud é estreita e reafirma a função compensadora dos sonhos em dado momento da consciência. As atitudes unilaterais da consciência sofrem a reação do inconsciente com o intuito de manter o equilíbrio produzindo sonhos em contraste com aquelas atitudes ou idéias fixas. O caráter compensador dos sonhos é individual e se manifesta de acordo com a personalidade de cada um. A função compensadora implica que o inconsciente acrescenta à situação consciente todos os elementos que não alcançam o limiar da consciência por causa do recalque ou simplesmente por serem débeis demais para chegar à consciência.

Ele aborda a questão da finalidade como uma função prospectiva e que ela é uma antecipação, surgida no inconsciente, de futuras atividades conscientes, um exercício preparatório ou um esboço preliminar, um plano traçado antecipadamente. Ela é superior à combinação consciente e precoce das possibilidades, face aos conteúdos subliminares do inconsciente e atua quando o indivíduo se encontra inadaptado ou fora da norma. Porém, alerta que a função prospectiva dos sonhos pode levar a se exagerar a importância do inconsciente. A importância do inconsciente é quase igual à da consciência. Não se deve desprezar a atitude consciente e guiar-se pelos sonhos. Quando o indivíduo está aquém do que pensa que é, a função prospectiva atua negativamente, adquirindo um caráter de uma função redutora do inconsciente, levando-o a perceber-se através de imagens inferiores ao seu papel consciente.

Ampliando os tipos de sonhos e sua função para o indivíduo, cita um outro comum em situações traumáticas. Ele dizia que os sonhos redutores, prospectivos, compensadores, não esgotam todas as possibilidades de interpretação, pois há sonhos reativos que derivam de situações traumáticas graves. Esses sonhos reproduzem uma situação traumática vivenciada até que seu conteúdo seja destituído da intensa carga afetiva associada ao trauma e possa ser reintegrado na hierarquia psíquica. Ele é reativo quando a interpretação analítica não interrompe sua produção dramática.

Fala da influência do organismo do sonhador na produção dos sonhos, afirmando que os estímulos somáticos só excepcionalmente têm sua significação determinante nos sonhos. Coloca também que os fenômenos telepáticos também exercem influência sobre os sonhos. Eles são os que antecipam no tempo e espaço um acontecimento, por exemplo, o falecimento de alguém; muito embora considere que não haja leis sobrenaturais, sabe-se que há fatos cuja explicação transcende o saber acadêmico.

Sobre o significado intrínseco das imagens oníricas ele analisa primeiro a questão das projeções, considerando a necessidade de se estabelecer diferença entre o objeto e sua imagem. Para ele, os conteúdos do nosso inconsciente são todos projetados em nosso meio ambiente. Deve-se perceber a importância das projeções e o valor simbólico do objeto. A interpretação objetiva decorre, às vezes, da incapacidade de distinguir-se entre o objeto e a idéia que se tem dele. Há apenas uma relação estética entre a imagem e o objeto. Assim, como não temos uma idéia precisa de alguém, a imagem onírica expressa a subjetividade. As imagens oníricas são partes constitutivas de nossa mente. São fatores subjetivos que se agrupam numa imagem, não por motivos externos, mas por motivos internos desconhecidos. A interpretação ao nível do sujeito concebe todas as figuras do sonho como traços personificados da figura do sonhador. Ele se questiona sobre o que é mais importante: o nível do objeto ou o nível do sujeito? Os laços afetivos com a personagem do sonho pode levar a um dos lados. A substituição das figuras é um trabalho dos sonhos motivado pelo recalque. É natural que ocorram substituições das figuras nos sonhos já que o recalque mantém afastado da consciência aqueles conteúdos que ainda não são passíveis de integração. Desse modo, o sonho apresenta tais conteúdos sob a forma de imagens (símbolos) que penetram na consciência pela necessidade de serem reconhecidos e trabalhados. Tal substituição pode refletir o pouco valor do afeto com a pessoa. A interpretação ao nível do sujeito traz ao sonhador uma ajuda a fim de que corrija suas atitudes inadequadas. Além disso, a relação vital entre o sonhador e a personagem do sonho auxilia a decidir qual será o nível de interpretação a ser empregado. A interpretação no nível do sujeito perturba a concepção ingênua da identidade dos conteúdos da consciência com os objetos. Toda religião antiga se fundamenta nessa ligação mística com o objeto, onde as projeções inconscientes são colocadas.

Em 1947 é publicado o texto escrito em 1931, oriundo de um discurso, intitulado “A aplicação prática da análise dos sonhos”, onde Jung estabelece novas considerações sobre os sonhos e sua prática psicoterapêutica.

Baseando-se no conceito de inconsciente, formulado por C. G. Carus, no “campo incomensurável de idéias” de Kant e na formulação de um inconsciente anímico de Leibnitz, ele afirma que o problema dos sonhos não subsiste sem a hipótese do inconsciente, pois sem ele, reduzem-se às sobras do dia. Para ele o objetivo da análise dos sonhos é a descoberta e a conscientização de conteúdos até então inconscientes, sendo eles sua expressão direta e capazes de apresentar sua etiologia. Alguns sonhos são mais complexos e neles não transparecem prognósticos nem etiologias, porém podem apresentar uma orientação à terapia.

Os sonhos apresentam a situação inconsciente como ela é, independente do desejo do sonhador ou das interpretações do analista. Quando a análise é causalista, o sonho pode ser privado do sentido de indicar algo ao sonhador. Os sonhos iniciais da análise são mais claros e de fácil entendimento. À medida que o tratamento avança, eles perdem a clareza e, se essa condição permanece, é sinal de que a análise não chegou à parte essencial da personalidade. Há sonhos iniciais que desvendam toda a programação futura do inconsciente e que, por motivos terapêuticos, não se deve revelar ao paciente. Muitas vezes, quando o analista considera que o sonho, ou mesmo seu paciente, é confuso, ele deveria admitir sua própria confusão, reconhecendo sua projeção.

Segundo Jung, o analista deve tentar convencer o paciente, e, em certos casos, mostrar-lhe sua resistência. Porém deve, acima de tudo, querer buscar o consenso, o que impedirá a sugestão, na análise do sonho, evitando a compreensão unilateral, pois ela pode ser fruto da tentativa de encaixar sua opinião numa ortodoxia. O paciente não deve ser instruído acerca de uma verdade, mas evoluir até ela. Nesse ponto, o analista deve evitar a sugestão ao paciente, sempre convidando-o a dar sua opinião e a tomar decisões quando colocado diante de problemas. Da mesma forma o analista deve precaver-se para não se confundir com as interpretações apressadas de seus pacientes. O sonho deve ser sempre encarado como uma novidade, fazendo surgir no analista a pergunta: – para que este sonho?

Para Jung, a concepção de que o sonho é a satisfação de um desejo já estava superada, pois os sonhos podem ocorrer exatamente representando desejos realizados. Eles podem exprimir: verdades implacáveis, sentenças filosóficas, ilusões, desenfreadas fantasias, recordações, planos, antecipações, visões telepáticas, experiências irracionais, etc. Eles não devem ser submetidos a uma doutrina, pois determinam algo de essencial à consciência, que apenas é concentração, limitação e exclusão. A assimilação do sentido do sonho integra os conteúdos inconscientes à consciência. As regras operacionais para a interpretação dos sonhos devem ser abertas a modificações. Elas devem tentar compor o contexto do sonho para depois entendê-lo, a partir da focalização dos elos associativos. A associação livre, por si só, não leva à compreensão do sonho, sendo necessária a montagem do contexto. Ela leva aos complexos, mas não ao sentido do sonho.

A regra básica para a compreensão dos sonhos é a teoria da compensação para o pensamento psíquico geral. Deve-se perguntar: Que atitude consciente é compensada pelo sonho? Acolhendo o sonho como ele é, percebe-se que, além de ser um instrumento de informação e controle, é o recurso mais eficaz na construção da personalidade. Quando o analista percebe de antemão algumas informações contidas nos sonhos, que, se conscientizadas, podem alterar negativamente valores de seu paciente e que podem prejudicar suas relações com terceiros, deve ele evitar colocá-las, salvo de forma a não lhe levar prejuízo algum. É importante não destruir valores verdadeiros da personalidade de seu paciente. O analista deve não só levar em consideração como respeitar as convicções religiosas, filosóficas e morais de seu paciente.

Jung também critica a posição freudiana a respeito dos símbolos sexuais oníricos, que tendia a interpretar como um pênis o que parecesse fálico. Para ele, os símbolos sexuais oníricos podem expressar algo que vai da atividade glandular fisiológica aos mais sublimes e fulgurantes lampejos indefiníveis de espiritualidade, pois eles representavam o criativo, o determinado, o mana, etc.

Posteriormente, em 1945, ele escreve um trabalho intitulado “Da Essência dos Sonhos”, onde procura aprofundar suas concepções e estabelecer princípios gerais a eles aplicados.

Ele considera que os sonhos dizem respeito à saúde e à doença, e que, no futuro, serão importantes para a identificação dos prognósticos referentes a uma doença ulterior ou mesmo à morte. Eles não procuram satisfazer à lógica, à moral e à estética; os que assim se apresentam são exceções. Deve-se ter cuidado em não ferir a sensibilidade do paciente com interpretações que lhe são agressivas, mesmo que óbvias. Ao ouvir um sonho deve o analista pensar: – “Não tenho a mínima idéia do que este sonho quer significar.” Mesmo que eles tenham motivos oníricos típicos freqüentes, não são suficientes para se concluir que a estrutura dos sonhos obedece leis determinadas, muito embora sua repetição logicamente queira dizer alguma coisa. Neste trabalho de buscar o sentido dos sonhos, precisa-se da ajuda do sonhador para limitar a diversidade das significações verbais ao seu conteúdo essencial, pois é necessário descobrir-se o contexto subjetivo dos termos surgidos. Jung afirmava que, considerar os sonhos como resultantes da realização de desejos recalcados, limitou os procedimentos com eles.

As associações são necessárias para que se alcance a reconstituição do contexto, com o intuito de descobrir o sentido do sonho, e, para tanto, exige-se:

a) empatia psicológica;

b) capacidade de fazer combinações;

c) penetração intuitiva;

d) conhecimento do mundo e dos homens; e,

e) um saber específico.

É o próprio sonho que nos fornece a maior parte do material empírico para a exploração do inconsciente. A autonomia do inconsciente produz sonhos que muitas vezes se opõem à consciência. No sonho ocorre um sistema de compensação que se distingue do de complementação. A compensação resulta num equilíbrio ou numa retificação. Na atitude consciente fortemente unilateral, o sonho adota um partido oposto. Na atitude consciente mais ou menos no centro, isto é, flexível ou que admite possibilidades, o sonho exprime posições variantes. Na atitude consciente correta o sonho coincide com essa atitude.

Jung coloca a importância da análise da série de sonhos como uma maneira de se entender o processo evolutivo da personalidade, cujo fenômeno, inconsciente, ele chamou de processo de individuação, que para ser visto fora da análise exige um certo tempo. O processo de individuação é a realização espontânea do ser humano total. A compreensão do processo de individuação exige conhecimentos da mitologia, do folclore, da psicologia dos primitivos e da história comparada das religiões. Os chamados grandes sonhos (significativos), nunca esquecidos, são importantes para a percepção do processo de individuação, por conterem motivos mitológicos ou arquetípicos. Neles verificamos que a alma é singular e coletiva; ao mesmo tempo, é subjetiva e objetiva.

Esses sonhos vêm da camada mais profunda da psiquê e ocorrem nos grandes momentos da vida. O material associativo em torno de suas imagens é escasso. Eles geralmente ocorrem na meia idade. Trazem temas comuns tais como: dragões, heróis, cavernas, animais benfazejos, demônios, velho sábio, homem-animal, tesouro oculto, árvore mágica, a fonte, o jardim protegido por alta muralha, processos de transformação, substâncias da alquimia, etc.

Comentários

Embora não tivesse um método rígido para análise e interpretação dos sonhos de seus pacientes, Jung freqüentemente recorria a que eles fizessem amplificações buscando a exploração de seus conteúdos.

Jung considerava que os sonhos eram sinais oriundos da esfera da psiquê ainda não contaminada pela nossa intencionalidade e sabedoria superior.[6]

Enquanto em Freud vamos encontrar um sistema rígido em relação à análise dos sonhos, em Jung vamos perceber um enfoque aberto que permitiu uma visão mais ampla através dos símbolos mitológicos e antropológicos. Os sonhos são considerados processos psíquicos naturais e reguladores da psiquê. Um dos diferenciais da análise dos sonhos entre Freud e Jung é a concepção deste último do inconsciente coletivo.

Jung procurou também fazer distinção entre sinais e símbolos a fim de melhor se fazer entender quanto ao significado das imagens oníricas. Enquanto os sinais se prestam apenas a indicar os objetos que estão ligados, os símbolos indicam algo que se encontra oculto, vago ou desconhecido, que não é imediato nem se encontra manifesto. Os sonhos retratam símbolos de forma espontânea e inconsciente, fora do domínio, portanto, da consciência. Para Jung, os sonhos são uma forma de segundo pensamento que se apresenta de maneira simbólica, por ter passado despercebido à consciência. Coloca ainda que muitos psicólogos justificam a existência da psiquê inconsciente, pelo estudo dos sonhos, por serem estes reveladores dos aspectos inconscientes.

Ele chama os sonhos de “ – fantasias inconscientes, evasivas, precárias, vagas e incertas do nosso inconsciente.”[7], ou ainda “o mais fecundo e acessível campo de exploração para quem deseje investigar a faculdade de simbolização do homem”, cuja importância está em ser um elo de ligação entre as duas instâncias psíquicas (consciente e inconsciente).

Ele aceitava a tese de que os sonhos expressam, através de formas simbólicas, sintomas neuróticos, porém não acreditava que se restringissem a isso, dado que manifestam símbolos numa variedade muito maior que aqueles sintomas. Da mesma forma aceitava a visão freudiana de que os desejos e a repressão surgissem manifestados nos símbolos oníricos. Porém, a partir da constatação da existência dos complexos (‘temas emocionais reprimidos capazes de provocar distúrbios psicológicos permanentes’, e que ‘reagem mais rapidamente aos estímulos externos’), ele percebeu que os sonhos poderiam estar levando o sonhador à percepção dos mesmos, tanto quanto de qualquer outra situação até então desconhecida da consciência. Aí ele percebeu que os sonhos têm uma significação própria.

Decidiu então não mais utilizar o método da livre associação para análise e interpretação dos sonhos, mas preocupar-se com o conteúdo e a forma com que os símbolos neles se apresentam, a fim de não se afastar do que eles realmente queriam dizer.

Analisando os sonhos e verificando suas inconsistências com a vida do sonhador e percebendo que ela não apresentava aspectos que pudessem ser correlacionados aos símbolos oníricos, ele buscou referenciais na história e na cultura, cujas semelhanças eram evidentes. Verificou que os símbolos são universais e surgem nos sonhos de forma nem sempre coerente para a consciência, tendo em vista que seus elementos geradores não são dela provenientes.

Considerando os sonhos como mensagens ao sonhador ele afirma que a consciência tende a rejeitar ou ignorar aquilo que é novo ou desconhece. Os sonhos devem ser tratados sem suposições prévias e sim como expressões do inconsciente.

Ampliando a visão que se tinha sobre os sonhos ele afirmava “que as imagens e as idéias contidas no sonho não podem ser explicadas apenas em termos de memória; expressam pensamentos novos que ainda não chegaram ao limiar da consciência.”[8]

Os pensamentos, idéias e elementos pertencentes à esfera da consciência nem sempre têm o sentido que lhes atribuímos. Eles estão conectados a aspectos inconscientes dos quais não temos a menor idéia. Os sonhos vêm revelar que sentido eles têm. Parecem desconexos e inverossímeis à consciência, porém, através das imagens oníricas podemos vislumbrar seus significados destituídos da lógica linear do ego, trazendo o significado inconsciente. Essas imagens são muito mais vivas e precisas do que as experiências semelhantes da vida consciente.

Os sonhos do ser humano moderno são ricos em símbolos e, neste aspecto, diferem dos sonhos do ser humano primitivo tendo em vista a forma diversa como as experiências conscientes afetam a ambos. O ser humano primitivo era mais instintivo, psiquicamente indiferenciado, inconsciente e, portanto, constantemente ligado aos seus conteúdos. O ser humano moderno, mais controlado (reprimido), possuidor de uma consciência extremamente diferenciada, necessita dos símbolos oníricos inconscientes para compensar a unilateralidade consciente.

Sobre o conteúdo dos sonhos, Jung escreveu: – “Os sonhos contêm imagens e associações de pensamentos que não criamos através da intenção consciente. Eles aparecem de modo espontâneo, sem nossa intervenção e revelam uma atividade psíquica alheia à nossa vontade arbitrária. O sonho é portanto um produto natural e altamente objetivo da psique do qual podemos esperar indicações ou pelo menos pistas de certas tendências básicas do processo psíquico. Este último, como qualquer outro processo vital, não consiste numa simples seqüência causal, sendo também um processo de orientação teleológica. Assim pois, podemos esperar que os sonhos nos forneçam certos indícios sobre a causalidade objetiva e sobre as tendências objetivas, pois são verdadeiros auto-retratos do processo psíquico em curso.”[9]

Numa perspectiva junguiana, os sonhos são fenômenos livres, independentes da vontade do ego vígil e espontâneos, gerados no inconsciente. Tornam-se seletivamente conscientes por um processo desconhecido. A esse respeito Jung coloca, numa perspectiva fenomenológica, que “os sonhos não são invenções intencionadas e dependentes do arbítrio, mas sim fenômenos naturais, que não constituem nada mais do que aquilo mesmo que representam.”[10]

Diferente de outros estudiosos, que se prenderam aos aspectos circunstanciais apresentados nos sonhos, Jung percebeu a riqueza expressa em suas imagens como oriundas da psiquê coletiva. Verificando que essas imagens arquetípicas não podiam ser adquiridas na vida do sonhador, aliado a outros conceitos, ele emprestou aos sonhos um caráter mais universal. Entender os conceitos de inconsciente coletivo, arquétipos e complexos, é fundamental para uma boa análise dos sonhos.

Podemos dizer que uma abordagem junguiana passaria por uma visão nítida e compreensiva do sonho, suas possibilidades de associações e amplificações, bem como uma contextualização de seu conteúdo em relação ao processo de desenvolvimento do sonhador.

Jung assinala[11]sua discordância de que o sonho seja uma continuidade da vida consciente do sonhador, preferindo acreditar que se trata de um fenômeno que contrasta com os conteúdos da consciência, muito embora não se distancie deles, em face de uma certa continuidade para frente.




[1]Obras Completas, Vol. I, par. 97.
[2]Idem, par. 117.
[3]Obras Completas, Vol. II, par 157.
[4]Idem, par 823.
[5]Obras Completas Vol. III, par. 308.
[6]C. G. Jung, Obras Completas Vol. VII, par. 209.
[7]O Homem e Seus Símbolos, p. 25.
[8]Idem, p. 38.
[9]C. G. Jung, Obras Completas Vol. VII, par. 210.
[10]C. G. Jung, Obras Completas Vol. XVII, par. 189.
[11]Obras Completas, Vol. VIII, par. 443 e seguintes.

Fonte: Adenáuer Novaes
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