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Textos Junguianos

Visão junguiana dos estigmas
Texto extraído do livro Estigmas Segundo a Psicologia do Espírito. Adenáuer Novaes.
Publicada no dia 19/01/2013 às 16h03

Ninguém escapa do preconceito da condição humana.[1]

A condição humana tem sido um fator ao qual se atribui erro, instinto, atraso, em face da exigência divinizante existente. A exigência da perfeição é uma foice sobre a cabeça do humano. O deus “Wotan”[2], da mesma forma que “Jeová”, assim instituiu. Séculos de medo e tortura sobre a consciência humana, principalmente a partir da Idade Média, não foram eliminados. Ainda pesa sobre o pobre ser humano a obrigação de ser perfeito e sublime, divino e transcendente, tudo ao mesmo tempo. Nem o Cristianismo, que se propunha a libertar consciências, conseguiu a leveza necessária para aplacar a “ira divina”, claro, instituída pelo próprio ser humano. De fato, nesse sentido, ser um humano torna-se um estigma. Todo mundo exige, independentemente da ideia que se tenha de Deus, que todos sejam melhores e mais bondosos do que simplesmente humanos. Muitos estigmas decorrem dessa terrível situação. A Função Transcendente leva conteúdos do Inconsciente à Consciência gerando símbolos. Nesse sentido, isto é, como um símbolo, todo estigma pode ser considerado oriundo dessa função atualizadora da vida, a serviço do processo de individuação e desenvolvimento da personalidade.

Modificaria significativamente a vida humana, perceber que o ser humano nasce inconsciente de tudo que constitui a realidade à sua volta, o Universo e o que se convencionou chamar de leis de Deus, além de entender que se lida com ideias sobre Deus e não com o possível significado atribuído à palavra. Tudo seria mais leve, pois não haveria um “julgador externo” sobre a consciência humana, atribuído por ela mesma. Vale salientar que “julgador externo” funciona como um poderoso e útil mecanismo psíquico de contenção ao ego e de direcionamento adequado da energia psíquica. Conseguir não se submeter a esse “julgador externo” requer um ego maduro para suportar sua ausência, substituindo-o por algo dotado de tamanha quantidade de energia quanto a agregada à ideia de Deus.

Jung estabeleceu que os complexos são a via régia de acesso ao inconsciente, em oposição a Sigmund Freud, que atribuía essa condição aos sonhos. Ele disse “A via régia que nos leva ao inconsciente, entretanto, não são os sonhos, como ele (Freud)pensava, mas os complexos, responsáveis pelos sonhos e sintomas.[3]. Não é simples a descoberta, ou melhor, a identificação de um complexo. Para isso, é preciso que ele esteja muito evidente, isto é, constelado na Consciência. Tanto o complexo quanto o sonho carecem de melhor compreensão e interpretação em face da simbologia de que se revestem. São vias indiretas de acesso ao Inconsciente, portanto, ao fato gerador do processo a ser conhecido. Particularmente, considero que existem outros meios de acesso ao Inconsciente. Um deles é o estigma, pois se apresenta de forma imediata, como uma pista direta ao que o constituiu. As correlações que podem ser feitas com cada tipo de estigma são muito mais admissíveis pela consciência do que as interpretações, mesmo que oportunas, feitas pelo ego. O estigma apresenta uma espécie de síntese do problema ou questão a ser desvendada pelo indivíduo. É a representação mais adequada e perfeita para que o próprio indivíduo entenda a si mesmo, exigindo-lhe um mínimo de esforço de interpretação. O estigma é uma parte do Inconsciente que se mostra na Consciência para que o ego atue, de forma mais objetiva, no processo de desenvolvimento da personalidade.

Não considero que todos os estigmas sejam resultantes de complexos, pois há configurações, a exemplo do filho único, que não resultam de mecanismos de defesa, de repressões, de rejeições ou de símbolos criados pelo Inconsciente[4]. O que o estigma promove na vida da pessoa, ao contrário, pode gerar complexos. A não ser que consideremos os complexos do Inconsciente como superestruturas que alteram configurações exteriores na vida de uma pessoa e que lhes daria um caráter extremamente absoluto. É preferível pensar que os estigmas tanto podem gerar complexos quanto ser causados por eles. De qualquer maneira, a existência de um ou mais estigmas não só atrai a formação como também a interligação de complexos do Inconsciente. Da mesma forma, certos complexos podem atingir de tal forma a Consciência que acabam por gerar estigmas. Seria mais adequado considerar que os estigmas incluem os complexos, considerando a perspectiva reencarnatória.

Há estigmas que resultam de complexos, porém não são todos. Creio também que a origem dos complexos não está necessariamente na repressão e na utilização inconsciente de mecanismos de defesa, pois sua formação ocorre por associação de conteúdos emocionais, natural e automaticamente, no Inconsciente, por força das semelhanças vibratórias ou frequenciais. Emoções diversas, geradas pelas várias experiências, nas sucessivas encarnações, por semelhança, associam-se no Inconsciente, gerando complexos funcionais. O Inconsciente ainda é algo desconhecido; portanto, cabem-lhe muitas teorias, inclusive a que ofereço a respeito dos estigmas.Assim, estigmas são marcas ou configurações, carregados de energia emocional, oriundos ou não de complexos, geradores, ou não, deles.

Por se materializarem, geralmente na parte física da Consciência, os estigmas compõem a autoimagem factível, ou possível, do indivíduo, requerendo adequações e reflexões sobre o mito pessoal e sobre a condução do próprio destino. São importantes sinalizadores e marcadores das transformações a serem conduzidas pelo Self, real condicionador da formação dos estigmas. Quando não consciente, o estigma apresenta-se também na forma de algum símbolo ou viés para que o ego adote uma condição ativa de compreensão, de tal maneira que seja percebido e se torne objeto da atenção consciente.

O Self, arquétipo direcionador do Processo de Individuação, propositor da formação do estigma, mediará a relação do ego com as consequências geradas na vida do indivíduo. Sejam consequências de adaptação social ou consigo mesmo, novos sinais serão gerados para que o indivíduo se harmonize interiormente.

Não faltarão avisos exteriores, ou por intuições e sonhos, bem como compensações aleatórias para se reequilibrar a dinâmica psíquica, agora artificialmente estabilizada pelo estigma. Trata-se de um sistema energético, em que um ou mais elementos que o formam, foi corrompido, necessitando de reparos.

A energia psíquica, normalmente, flui na direção do Inconsciente para a Consciência, materializando-se em experiências geradoras de aprendizado e crescimento pessoal. Esse fluxo, que visa o desenvolvimento da personalidade, foi desviado ou paralisado por um ou mais estigmas, com ou sem a contribuição de complexos.

O estigma é uma espécie de redesenho do ideal do ego, cuja função é reestabelecer o desequilíbrio psíquico promovido por algum fator contrário ao Processo de Individuação. O propósito é a autopercepção de si mesmo para que o indivíduo realize o encontro com sua íntima natureza, isto é, com o Si-mesmo.

Os estigmas não são isentos da influência dos arquétipos, pois são modelados pelas características daqueles que devem ser atualizados. São os arquétipos os modeladores das contingências que envolvem a formação dos estigmas, dando-lhes um caráter específico de acordo com sua natureza. O caráter particular, adequado a cada indivíduo, é dado pela influência dos complexos de cada um. No homem, quando o estigma se relaciona com sua ânima, tende a ter conflitos de natureza sexual. Na mulher, quando o estigma se relaciona com seu ânimus, tende a ter conflitos de ordem profissional ou relativos a limites.

É evidente, pela natureza da maioria dos estigmas, que eles vão refletir parte da sombra do indivíduo. A sombra contém aquilo que é negado ou negativo na pessoa, representando, também, tudo o que lhe é inconsciente. Em face dessa condição, sendo o estigma porventura inconsciente, quando tornado consciente, carrega consigo ideias e pensamentos aversivos e inerentes ao indivíduo.

A persona, formada com a influência direta dos estigmas, deve ser considerada como contaminada por tudo que deles decorre. Quanto mais consciente do estigma, mais a persona se deforma para lidar com um mundo sombrio e decorrente das consequências por ele geradas na personalidade. Todas as experiências vividas até sua consciência foram enviesadas pela influência, direta ou indireta, do estigma, merecendo ressignificação. Tal providência requer um longo período e reflexão, silêncio e planejamento para que o passado seja revisto, repensado e reavaliado, considerando a sutil influência do estigma. O mundo do estigmatizado é moldado visando livrar-se do incômodo causado pelo estigma, tornando-o centro da dinâmica psíquica, quase formando uma personalidade supraordenada. A persona contém grande parte da energia gerada para conservar o equilíbrio da relação entre o ego ideal e o real, visando uma melhor adaptação ao mundo.

O processo de desenvolvimento e amadurecimento da personalidade passa pela consciência das consequências geradas pela permanência e influência do estigma no modo de ser e no comportamento do indivíduo e também pela compreensão do porquê e para quê de sua instalação. Seu portador deve entender que se trata de um importante sinal, cuja utilidade deve aproveitar na busca de sua realização pessoal.

O estigma é, antes de tudo, uma marca psíquica, como se fosse uma seta de mão dupla apontando para o passado e para o futuro. Sem sua decifração, a alma fica paralisada, consumindo a energia psíquica necessária para a Individuação.

Analisar terapeuticamente uma pessoa requer identificação dos estigmas existentes, como símbolos de uma vida que se carrega, de uma história que se escreve e de um destino que se pode modificar. Não estar atento a eles é o mesmo que olhar para um céu estrelado e não enxergar ou se incomodar com as estrelas.


[1]JUNG. C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis-RJ: Vozes, 2000. par. 129, p. 75.
[2]Um dos deuses da Mitologia Nórdica, também conhecido como Odin, o maior de todos. Wotan, entre outras características, é tido como deus da sabedoria, da guerra e da morte. Guarda semelhança com Zeus, da Mitologia Grega, tido como deus todo poderoso.
[3]JUNG, C. G. A dinâmica do inconsciente. 2. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1991. par. 210, p. 104.
[4]Buscando uma definição científica de complexo, Jung escreveu: “É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência.”. JUNG, C. G. A dinâmica do inconsciente. 2. ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1991. par. 201, p. 99.

Fonte: Adenáuer Novaes
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